Crítica

Fotos: Rogério Vital

O ingrediente da coragem

Altamente dramatizada ou completamente insignificante. As formas da crítica gastronômica no Brasil oscilam entre os programas de TV, onde aspirantes chefs e o júri encenam o julgamento, e a busca do “consenso”, isto é, a renúncia ao rompimento de barreiras. Assim temos a proliferação de “guia dos melhores”, onde na composição do júri podemos encontrar, por exemplo, um skatista, um tatuador, repórteres, midiartista, ginecologista, apresentador de Tv e, claro, críticos de gastronomia, editores especializados no tema.

Como lucidamente explica o crítico Carlos Alberto Dória, em seu blog E-BOCA LIVRE, “...desde logo fica claro que se busca o “consenso” capaz de representar um juízo “médio”. E que ao se elevar o comum dos comedores à condição de crítico, lado a lado com críticos profissionais, esses é que são destituídos de um saber técnico específico e tomados como “qualquer um”. É o compromisso entre a especialização e o senso comum como a quintessência da crítica...”.

O Brasil é um país onde a crítica é incompreendida, isto é, ainda não conseguiu legitimar-se como espaço de elaboração cultural que, em geral, vai contra a corrente, contra o estabelecido. Tanto é que se julga o que um crítico escreve segundo duas categorias estranhas à própria noção de crítica: “crítica construtiva” e “crítica destrutiva”. Como alguém pode construir algo num terreno ocupado sem antes “destruir”?

Entretanto, no meio dessa indefinição de atitudes, a capital potiguar assistiu no final do mês de outubro a um ato de coragem: o desafio Equilíbrio Perfeito, promovido pela importadora Cantu. Corajosos foram todos os protagonistas desse evento: a importadora de vinhos que, ao propor a pergunta “Quais são seus melhores pratos para nossos vinhos?”, estimulou o panorama dos restaurantes da cidade; os três restaurantes participantes, que tiveram que “pensar” como alcançar a melhor combinação para os vinhos; e o júri que, acatando a proposta dos organizadores, se prestou a um ato crítico, seguindo parâmetros concordados entre os membros.

Independentemente de quem ganhará o prêmio, para o panorama natalense eventos desse tipo são bem-vindos porque estimulam a pesquisa, o pensar sobre o ato culinário e a discussão. Onde abunda o “consenso”, e falta o espírito crítico, provavelmente se come mal; onde utilizamos como ingrediente nosso próprio juízo com certeza se come melhor.
 

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