Prêmios

Fotos: Rogério Vital/Deguste

 

 Estou em São Paulo participando de um evento, e soube aqui que fui escolhida pelo terceiro ano consecutivo como Chef do Ano pela Veja Natal Comer e Beber. Confesso que fiquei meio dividida entre dar uma piradinha ou me concentrar em finalizar as compras para O Bule e colocar os pezinhos no chão. E fiquei refletindo sobre isso, sobre a permissividade que se tem em deixar o ego às vezes vir à tona, e dar um gritinho de satisfação.
             
 Adoro músicas, e nessa hora, acho que a minha trilha sonora seria uma música de um compositor não tão evidente, Cacaso, que fala “quem me vê assim cantando, não sabe nada de mim”. Porque muitas vezes o que vemos do outro é só a ponta do iceberg. E quem me vê cozinhando, não sabe nada de mim. Como diz Rita Lee, “dá muito trabalho ter sorte”. E por trás de tudo isso, muitas escolhas foram feitas, sem a menor garantia de que vai funcionar. Sai de Natal para Florianópolis em busca de um sonho que era fazer uma faculdade de gastronomia, que não existia em Natal. Sai arquiteta, escutando pessoas me chamando de louca por querer ser cozinheira em vez do glamour da arquitetura, com um frio na barriga a caminho do aeroporto, pensando se estava fazendo a coisa certa, fechando a porta do apartamento montado e da recente reforma da minha casinha no Bomfim, que viria a ser O Bule, para estudar e começar tudo de novo.
               
Cheguei numa quarta feira de cinzas, com problemas no meu alojamento, precisando acionar um plano B, e sem conhecer ninguém. Finquei pé, pois às vezes é preciso respirar e ouvir a voz do coração, e todas as minhas dúvidas foram embora na hora em que entrei na faculdade, vesti minha dólmã e me encaminhei toda paramentada para a primeira aula de técnicas culinárias. Entendi que tinha encontrado minha tribo, meu lugar no mundo, me senti pertencendo a uma raça, e não consigo encontrar uma alegria maior que se encontrar no mundo! Eu soube que fazia parte daquilo. A faculdade foi fácil. Porque eu respirava isso. E me descobri, por querer tanto, ser uma tremenda cara de pau, me oferecendo para estágios com os que eu admirava, trabalhando em troca do que dinheiro nenhum pode ganhar que é o conhecimento.
             
 Quem sabe de mim pessoalmente, lembra-se dos desafios particulares que vivenciei neste período, e venci porque a cozinha estava sempre pronta a me salvar, sempre aberta a me amparar e me dar esperanças e até me distrair em momentos mais complicados. Não concebo desculpas e não peguei para mim desculpas para não continuar. Em Floripa participei de concursos, porque sempre tinha como prêmio um bom estágio, encarei com bom humor a falta de estrutura para participar deles, por não ter real conhecimento de onde estava me metendo, mas acho que às vezes, ser surdo é a melhor opção, e venci muitos deles, o que sempre serviu para que eu pudesse ter certeza que estava no caminho certo e onde eu podia melhorar, pois tinha a opinião destes grandes nomes da gastronomia que me norteavam.
               
Muitas águas rolaram, voltei a Natal precisando fazer esquecer que eu era arquiteta, precisando me mostrar como cozinheira. Hoje me sinto um pouco de volta a isto. Ao tempo da faculdade. Ganhando um prêmio como nos dos concursos. E me permitindo ficar alegre. Alegria de ter o esforço reconhecido. Alegria por ter seguido meu coração e ter sido coerente a ele, apesar de ter trilhado um caminho no mínimo diferente, longe do grande centro, longe do burburinho, longe dos holofotes. Alegria de ter sido de novo um pouco surda e não ter sucumbido às tentações. Alegria por ter escolhido viver! E não ter a vergonha de ser feliz. Obrigada a todos os loucos que entraram nesta nau comigo e me ajudaram e me engrandeceram nesta jornada. Tenho sido feliz!
 

Outros Artigos

Cartagena das Índias

As Damas da Cozinha

Hoje é o aniversário da minha mãe. O primeiro em que ela passa no céu, e assim como Isabel Allende, ando em busca de consolo em um alimento que me conforte. E lembro então, das grandes damas da cozinha natalense, a quem a minha mãe sempre se referia, e também ela, recorria sempre, senão por conforto, apenas por prazer. Falo especificamente de duas gr...

Um certo bolo e banana

Lembro-me de minha infância passada na Lagoa do Bomfim, onde cada tia tinha a missão de se responsabilizar por algum prato, que depois serviria para ser colocado na mesa e ser servido para filhos e sobrinhos. As mais habilidosas eram minha mãe e minha tia do impecável e moderno caldo Knorr. As outras davam sua contribuição em forma de brigadeiros e cac...

Os 50 Melhores Restaurantes

O chef René Redzepi, no restaurante Noma Acaba de ser divulgada a esperada lista da San Pellegrino que elege os 50 melhores Restaurantes do Mundo. No topo dos 10 melhores, o Noma, na Dinamarca, que já encabeçou esta lista em outros anos. À frente dele, o Chef René Redzepi, que faz uma cozinha extremamente nórdica, baseada em suas ...

> leia mais

Comentários

  • Deguste
    Dayse Teixeira Cardoso disse:

    Muito bom ver uma historia de sucesso assim. Parabens pela `determinação de "arquitetar" maravilhas para nobres paladares. Parabens à Chef Soninha!

    Responder
  • Deguste
    Cecília disse:

    Conheço a sua história e parabéns pelo sucesso e pela superação. Vc merece tudo isso que esta acontecendo com vc. Abraço e que Deus te abençoe sempre.

    Responder
    • Deguste
      sonia Benevides disse:

      Dayse, muito obrigada pelas palavras. Vc sabe da minha fase arquieteta que só queria cozinhar.....Bjos no coração.

      Responder
    • Deguste
      sonia benevides disse:

      Oi Cecília....como vc, ouvi a voz do coração. O resto é apenas detalhe...Bjos mil.

      Responder
  • Deguste
    MARCIO ROCHA disse:

    JÁ ERA ESPERADO E VOCÊ MERECE. UM ABRAÇO CHEF !

    Responder

Deixe seu comentário