A metafísica da comida

 

 
“Bebo para esquecer e como para recordar”. Com essas palavras, o detetive Pepe Carvalho, personagem do escritor espanhol Manuel Vázquez Montalbán (Barcelona, 1939 - Banguecoque, Tailândia, 2003) explica por que bebe em excesso ou por que come tanto assim. Ao falar sobre cozinhar e comer, os antípodas esquecimento e lembrança nos oferecem uma abordagem do passado histórico. 
 
Como se deu ao longo do tempo a trajetória da cultura culinária, desde a função de sobrevivência até a função de prazer? Na cultura ocidental, questões de gosto ou de bom gosto têm uma longa tradição que remonta à Antiguidade; o mesmo não se aplica ao gosto em relação aos hábitos alimentares. Filosofou-se e teorizou-se abundantemente sobre literatura, arquitetura ou escultura, porém não sobre a comida.

A razão decisiva disso, simples e secular, é o fato de a satisfação das necessidades corporais ser secundária na teoria da moral de Platão: para ele, o que confere humanidade ao ser humano, apto à racionalidade e potencialmente livre, são a essência intelectual e o arbítrio moral. Toda necessidade corporal (inclusive a alimentação) foi enquadrada no âmbito animalesco, irracional e desprovido de liberdade. Questões de bom gosto quanto aos hábitos alimentares não eram nem dignas de serem discutidas, algo confirmado pela sentença latina de gustibus non disputandum (o gosto não se discute). 
 
Esta tradição de negar o corporal e sobrelevar o intelectual teve continuidade na doutrina moral da Igreja na Idade Média. E, nos últimos cinco séculos, o corrente lema luterano “há que se saber renunciar” foi tão pouco fomentador do espírito culinário nas zonas nórdicas como a fundamental pergunta calvinista “o que isso importa no Além?”. De qualquer forma, basta olhar a tradição evangélica, para perceber que a católica parece mais amena.

A ostentação barroca católica e a prodigalidade dos bispos pelo menos culminavam de vez em quando em comilanças orgiásticas, fosse na corte ou no clero. A partir do retrocesso moral da época da Reforma se desenvolve uma clara tendência de calcular custos e benefícios no âmbito culinário, de tornar a cadeia alimentar um fato econômico: tempo é dinheiro.

Hoje a gente se pergunta com toda naturalidade: o que ganho em ficar cozinhando durante horas? Em vinte minutos já estará tudo comido mesmo...
 

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