Começando...

Quando o ano começa, principalmente depois de um quase fim do mundo, como muitas pessoas eu me sinto tentada a olhar para trás, para me (re) alegrar, me lamentar, me confortar, buscar esperanças...

Foto: Rogério Vital / Deguste
As saudades vão para as perdas, para os amigos distantes, para as grandes partidas, em particular, da minha irmã portuguesa, minha amiga de todas as horas, de todas as terras, de todos os pratos, de muitos sabores. Saudade às vezes tem gosto salgado, mas também pode ser como a cantada por Roberto Carlos "a que eu gosto de ter", e estas vão para as viagens realizadas, as descobertas gastronômicas, essa tem gosto de pastel de nata, particularmente de um cafézinho do El Corte Inglês, do zabaione da maravilhosa sobremesa do 100 maneiras, de crepe de rua com nutella de qualquer rua de Paris. E cheiros, o melhor deles, das lavandas da Provence.
 
As lamentações, eu prefiro sempre guardá-las comigo, decifrá-las para mudá-las, pois acredito que para isso servem todos os desconfortos, para encarar, para analisar, para transmutar e fatalmente buscar o que a gente quer, aprendendo a escutar a voz do coração. Com a esperança doce, que no natal vem em forma de rabanadas, no oficial, mas que aprendi a chamar de fatias douradas, um nome que acho poético, infantil, mágico como toda infância deveria ser, uma vez que penso no Natal como uma festa muito infantil, no sentido mais puro da palavra, apesar de nem sempre conseguir me lembrar de entrar neste estado de graça.
 
Os confortos guardo-os todos para as "confort foods". Comidas que alimentam a alma, como pudim de leite moça, com direito a raspar a latinha, como farofa no peru, tapioca com ovo caipira, café com leite e pão assado, manga e caju tirados do pé, e devorados à beira da lagoa. Canja à noitinha, guaraná com bolo, batata frita com coca cola, mas batata de verdade, cortada manualmente e enxugada em pano de prato antes de ser frita em óleo quente.
 
A esperança deveria ser verde, como o espinafre, a ervilha, o feijão, mas não consigo encontrar conexão com estes alimentos e a esperança. Talvez porque para cada um ela tenha uma cor particular, para cada pessoa ela represente um desejo, secreto, escancarado, divulgado, proibido. A esperança deve ser da cor do arco-íris, talvez como aqueles pirulitos de infância, puro açúcar, redondos e cheios de cores que nunca se consegue identificar, talvez por serem às vezes secretas, disfarçadas, proibidas...
 
Mas réveillon é festa de brilho. E glamour é champagne! E morangos... ou quem sabe cerejas???? E lagostas, e camarões, e risos e alegrias. Que me parece ser tão cor de rosa como um algodão doce, daqueles dos sacos soprados, que para horror de toda mãe, as crianças adoram. Mas se puder ser (e na fantasia tudo pode) que seja daqueles de carrinho, que esperamos com ansiedade serem finalizados, com um cheiro morno de açúcar queimando aos pouquinhos, se transformando numa nuvem gulosa e rosada, até serem enroladas, partidas e colocadas num pedaço de papel. Que seja assim o novo ano! Fantástico e mágico. Doce e até mesmo fugaz como a nuvem de algodão doce no céu da boca. Em tempos de pressa, que pelo menos a gente saiba apreciá-lo enquanto estiver acontecendo. Ainda é tempo de feliz ano novo!
 

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