O dilema de cuspir

Foto: Rogério Vital / Revista Deguste
Cuspir ou não cuspir: eis a questão. O dilema shakespeariano declinado em chave enológica não é de pouca importância: em feiras, lançamentos e degustações o objeto que os amantes do vinho mais vêem é o balde para cuspir. Feio de se ver, ainda pior vê-lo quando está sendo usado; sem falar que no final do evento está cheio do que todos cuspiram. 
 
Mas será que é mesmo necessário? Entre os profissionais da degustação as opiniões se dividem. Há quem acha isso inevitável, para não abusar de vinho e assim degustar e permanecer lúcido na avaliação e na volta para casa. Outros acham que é possível fazer sem, já que vinho não é colutório e que para apreciá-lo inteiramente é necessário degluti-lo mesmo em goles muito pequenos. Entretanto, para os profissionais do vinho às vezes as exigências requerem escolhas drásticas.

Certas sessões de degustação chegam ter até 80 vinhos e não há eno-herói que possa resistir! Diminuir o número de amostras e deglutir seria o ideal; também para poder avaliar o poder traçante do vinho quando passa pela garganta: nos vinhos mais incisivos essa linha chega até o estomago. Nesse sentido, ao cuspir perde-se muito. Em relação à oxigenação não há unanimidade. O que incomoda muitos operadores da área são os barulhos que dão um aspecto circense às degustações: para alguns fazer biquinhos, caretas e emitir sons estranhos para aumentar a exposição do líquido ao oxigênio acaba complicando, ao invés de facilitar. 
 
Jogar fora o vinho não é somente uma questão técnica, mas também de respeito: não são raros os casos de produtores que ficam feras ao verem a própria “cria” sendo jogada ralo abaixo! “Não me venham com essa história do perigo de ficar bêbados e perder a lucidez. Se alguém trabalha com isso e não consegue agüentar goles pequeninos então mude de profissão!”: esse é o tipo de comentário mais freqüente entre os produtores do velho mundo. Sempre nessa linha, há quem indica outra contradição: procuramos tanto a elegância no serviço, no ato de colocá-lo na taça e depois a perdemos ao cuspir!
 
Para os ortodoxos (sábios?) todo esse discurso se resume ao seguinte: há somente uma razão para cuspir o vinho. Quando é ruim.

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