Um certo bolo e banana

Ando às voltas com uma tese de Mestrado fazendo uso de hidrocolóides, géis e todo tipo de produtos interessantes que me fascinam na nova cozinha de vanguarda. Eventualmente, busco inspiração em sabores que me marcaram ao longo da vida, porque no fundo, a gente parece sempre saber que a alma é quem deseja ser alimentada.

Lembro-me de minha infância passada na Lagoa do Bomfim, onde cada tia tinha a missão de se responsabilizar por algum prato, que depois serviria para ser colocado na mesa e ser servido para filhos e sobrinhos. As mais habilidosas eram minha mãe e minha tia do impecável e moderno caldo Knorr. As outras davam sua contribuição em forma de brigadeiros e cachorros quentes que mesmo não sendo por assim dizer, gourmets, davam conta do recado.
 
Da parte da minha mãe, os inigualáveis eram o empadão de galinha e o bolo de banana. As receitas eram imprecisamente precisas, pois algo podia mudar durante o processo, como uma tentativa de uma casquinha de limão que poderia talvez dar um sabor diferente, ou outro ingrediente que ela tivesse vontade de experimentar. A receita era sempre muita divulgada para todos, da maneira mais informal, com medidas meio incertas, à base de xícaras, que não interessava que fossem exatamente cheias, meio cheias ou rasas. Minha mãe guardava ainda um pouco da molecagem de infância e não se prendia demais a estes detalhes. Sempre dava certo.
 
Aprendi com o tempo que ela muitas vezes fez uso de suas comidinhas, de forma a falar através dela das suas emoções, e de conseguir passar seu amor, pois nem sempre foi capaz de fazê-lo com palavras. E repetiu seu bolo de banana à exaustão, sempre que percebeu que algum dos filhos estava precisando de um pouco de colo. Ama-se na vida de diferentes formas. E é preciso ter a sutileza de compreender isto. O bolo de banana virou sinônimo de amor partilhado.
 
Minha mãe partiu. E me deixou a imensa felicidade de ter encontrado o significado do que é o prazer de alimentar, de me ter confiado bifes para temperar na infância em pontas de pés, acreditando talvez, que um dia eu poderia vir a ser uma cozinheira parecida com a que ela foi. Deixou-me uma missão de alegria, e a esperança de poder conseguir transmitir também muito amor através de um prato de alimento. E não obstante ter-me profissionalizado nesta linda área, e estudado em grandes escolas, estagiado com grandes Chefes estrelados, foi capaz de ter me feito saber compreender com humildade, de que o alimento trata-se sempre disto mesmo: doar um bocadinho de amor.
 
Muito obrigada Mainha!
 

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