As Damas da Cozinha

Atire o primeiro brigadeiro aquele que nunca recorreu a um prato ou qualquer quitude em busca de um pouco de conforto para a alma. Em seu belíssimo livro, Paula, a escritora chilena Isabel Allende, narra que “É meu doce preferido – o arroz doce – e por isso, em 1991, em um restaurante de Madri, pedi quatro pratos de arroz-doce e, para completar, um quinto de sobremesa. Comi todos sem piscar, com a vaga esperança de que aquele nostálgico prato da minha infância me ajudaria a suportar a angústia de ver minha filha muito doente".

Hoje é o aniversário da minha mãe. O primeiro em que ela passa no céu, e assim como Isabel Allende, ando em busca de consolo em um alimento que me conforte. E lembro então, das grandes damas da cozinha natalense, a quem a minha mãe sempre se referia, e também ela, recorria sempre, senão por conforto, apenas por prazer. Falo especificamente de duas grandes cozinheiras, que sempre foram para mim, uma referência total de qualidade. Dona VALDECY VILAR DE QUEIROS SOARES e Dona IGNÊS MOTTA DE ANDRADE, a quem antes se chamavam quituteiras, em tempos que ser Chefe de cozinha estava muito longe de ser uma profissão e muito menos ainda de ser glamourosa.
 
É com gratidão e com alívio, que penso que posso ainda me lambuzar de suas delícias, pois o trabalho delas ainda existe. E penso com muito carinho, que escolheria para minha mãe, um aniversário, onde não faltariam aquelas comidinhas que em idos tempos, significavam o mais puro luxo. E como para mim, luxo é muito relativo, mesmo retrô, mesmo demodê, ou seja lá que nome se queira dar a comidas que se perderam um pouco no tempo, eu encheria uma mesa de pães de queijo, aqueles fofinhos, recheados de peito de perú e fios de ovos. Pederia a valdecy a sua inigualável e maravilhosa cascata de Camarão, espetadas em Abacaxi, com o molho rosé que o acompanhava. Salivaria com seus rissóis, seus casquinhos de caranquejo. E também não deixaria de fora, as deliciosas empadas de camarão de Dona Ignês, que são veludos se desmanchando na boca. 
 
A grande ausência seria, além da presença da minha mãe, a torta Presidente, que Dona Ignês já não executa mais. Confesso que sempre que entro na Nick, eu finjo que não sei nada sobre isso, e me pego mesmo como louca, perguntando se eles ainda a fazem, talvez na vã esperança, de que um dia, me respondam afinal, que sim, que a executam como faziam antigamente. Porque às vezes, a gente quer voltar no tempo. Tempo da presença da minha mãe passeando pela casa. Tempo que se encomendava Torta Presidente na Nick Buffet.
 
 

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