“Dêem-me uma faca e transformarei o mundo!”.
Depois do estrelato em revistas, programas de TV, livros e cinema, o chef agora se propõe ser agente de transformação social. Ao assinarem, dias atrás, a “Carta de Lima”, 9 chefs renomados mundialmente (Gastón Acurio, Astrid & Gastón, Espanha; Ferran Adrià, elBulli, Espanha; Alex Atala, D.O.M.), Brasil; Dan Barber, Blue Hill, Estados Unidos; Heston Blumenthal, Fat Duck, Grã-Bretanha; Massimo Bottura, Osteria Francescana, Itália; Michel Bras, Laguiole, França; Yukio Hattori, Escola de Cozinha e Nutrição Hattori; René Redzepi, Noma, Dinamarca) declararam própria preocupação com o social e o sustentável: “Nós sonhamos com um futuro onde o cozinheiro e a cozinheira estejam comprometidos, conscientes e responsáveis de sua contribuição para uma sociedade mais justa, solidária e sustentável.”. A Declaração de Lima, que segundo os chefs não pretende ser um documento fechado, mas aberto a novas contribuições, afirma também que a cozinha pode ser uma ótima forma de “auto-realização”, em que cada cozinheiro deve encarar suas inquietações, seus sentimentos, sonhos, humildade e, sobretudo, paixão”.
A Declaração de Lima também aborda a importância que a cozinha deve dar à natureza, já que o trabalho do cozinheiro ‘depende dos frutos’ dela, o que cria a necessidade de se promover e praticar um sistema de produção sustentável na terra e na cozinha. Sobre a sociedade, o texto afirma que os cozinheiros são ‘herdeiros de um legado de sabores, costumes gastronômicos e técnicas de cozinha’ e devem exercer um papel ativo para contribuir com a cultura e identidade dos povos.
Segundo muitos, essas declarações de boas intenções beiram a ingenuidade, já que o mundo se move por interesses; e apesar de toda a boa intenção, a cozinha de todos eles continuará onde sempre esteve: nos salões mais luxuosos, acessível apenas à nata da elite. A realidade, vivenciada em todo o mundo por quem come e quem prepara a comida, nos diz constantemente que a gastronomia deixou de ser um poder centralizado em poucos chefs. A dispersão é sua marca. Está em toda parte.
E, concretamente, o que propõe o G9? Os “cozinheiros de amanhã” devem servir aos seus clientes alimentos transgênicos? Devem olhar para a Amazônia de modo deslumbrado, sem uma palavra e um ato que recuse sua destruição? Devem servir aos clientes produtos intoxicados por hormônios, antibióticos?
Enfim, perderam a oportunidade de assumir compromissos de verdade com aqueles que defendem essas bandeiras. Cerrar fileiras com causas claras, esse era o ponto esperado.
Michele Maisto michele@revistadeguste.com