Comida de Alma

Fotos: Rogério Vital / Deguste

Entramos na era do modernismo em todas as frentes, e a gastronomia não ficou de fora.  Os mais curiosos poderão constatar uma infinidade de opções de menus com vários atrativos, desde cardápios virtuais conhecidos como e-tables, até robôs no lugar de garçom, ou mesmo os já mais comuns i-pads no lugar do cardápio, sem contar com um sem-número de ingredientes que a cada dia são descobertos, modificados e incorporados ao cardápio.

Mas afinal, o que querem os comensais? O que faz com que as pessoas se desloquem de suas casas para enfrentarem trânsito, escolherem entre as tantas opções que a cidade oferece e que expectativas elas almejam satisfazer? Muitos fatores estão envolvidos nessa complexa matemática referente à escolha da comida, mas o inquestionável é que o cliente quer simplesmente viver uma boa experiência. E como isso é possível?

Com a infinidade de temperos e as ilimitadas possibilidades de mesclá-los, a ida a um restaurante acaba se tornando uma possibilidade de diversão. Na cena gastronômica atual, as pessoas estão mais abertas e mais curiosas e, portanto, propensas a gastar em prol de seu próprio prazer, e o bem comer, é uma maneira literalmente gostosa de investir em prazer.

E o que seria o bem comer? Para mim, existe uma resposta muito simples, e por isso mesmo muito complexa. Depende de cada um. A satisfação é pessoal, e embora no momento gastronômico que estamos vivendo exista às vezes quase uma obrigação de se experimentar improváveis combinações, certa pressão de se pedir os itens estabelecidos como chiques, mesmo que não façam parte de nossa cultura, insisto que a pessoa deve ter a liberdade de escolher o que lhe apetece, o que lhe dar prazer, o que sacia sua fome e lhe faz revirar os olhos, a boa comida, aquela que lhe agrada e ponto, mesmo que seja contrário ao que se cultue no momento. Afinal, a quem queremos enganar?  Quem é que vai sair da mesa saciado e feliz com a escolha?

A liberdade de criação é um direito absoluto de todo chefe. Mas ingredientes sozinhos não fazem milagres. Nomes pomposos, não garantem por si só um bem comer. A inserção de itens caríssimos não são necessariamente garantia de um prato memorável. Um prato memorável pode ser muito simples, desde que bem executado, com ingredientes corretos, éticos, técnicas adequadas e tempo de cozimento respeitado. O cliente percebe isso, mesmo que ele não consiga colocar em palavras a sensação que uma boa comida lhe causa, ele sabe! Ele sentiu o cheiro, ele começou a projetar lembranças, ele antecipa as sensações e sempre quer ter atendidas as suas expectativas. 

Boa comida é para mim, a comida de alma. Moderna, de roça, potiguar, regional, francesa, clássica, tradicional, não importa. O importante é a intensão, é a falta de pretensão, é, como poderia dizer, a emoção que ela carrega, é o respeito que nela se deposita, é o saciar também a alma. Se em algum momento da vida isso for atingido, para mim, toda a jornada terá valido a pena. 

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