Para Luisa

 

Luisa descobriu o sushi. Nunca tinha comido salmão cru. Já tinha tido uma experiência gastronômica oriental, mas não tinha sido muito feliz, e morria de preconceito em relação a ela. Para sorte dela, tem uma amiga chefe de cozinha que sabe onde se pode encontrar as boas comidinhas e levou-a ao lugar certo e ela então passou a amar. Como boa portuguesa, Luisa sempre apreciou uma boa mesa, e por sorte minha de ter uma amiga portuguesa, também eu soube tirar proveito disso. Assim, fui apresentada às caracoletas, feitas no capricho na casa de uma amiga dela e também a um inusitado doce de tomates feito também por essa caprichosa senhora. Nas tasquinhas de Santarém, comi pela primeira vez com Luisa os grelos, e também as migas, esses pratos tão banais e por serem assim tão genuínos e contadores de histórias, o fazem assim especiais. O almoço baratinho em Santarém era sempre seguido de umas aulinhas de pintura de azulejos, pois a minha amiga é uma artista primorosa.
 
A casa de Luisa em Alcanhões tinha uma grande varanda, onde eventualmente aconteciam uns animados almoços em taredes ensolaradas. Lembro sempre de uma grande travessa de salada de verdes e tomates que antecedia o almoço, e não tinha nenhum, nenhum ingrediente mirabolante, a não ser o frescor dos mesmos, que certamente tinham sido colhidos por algum daqueles pequenos agricultores locais. E então vinham as febras, as batatas cozidas e sempre, sempre o pão caseiro para raspar do prato o azeite da salada.
 
Mas Luisa também tem seus momentos gourmets. Na minha última visita a Alcochete, ela me preparou orgulhosa um bacalhau dentro de uma grande broa. E com a confiança de uma gourmet, ou o atrevimento de uma metida a chefe de cozinha, lá alterou a receita dada por uma amiga, substituindo com convicção um dos ingredientes. Como não provei a original, achei que aquele estava soberbo e ela me garantiu que melhor que o da receita. Não sei se eram as suas especialidades, mas sempre adorei as suas sopas, cremosas, algumas à base de um fino purê de batata, sempre tão perfumadas. Minha grande amiga Luisa está partindo.

A minha irmãzinha portuguesa, a mais brasileira das portugas vai me abandonar. Leva com ela toda a sabedoria das pessoas especiais e iluminadas, e deixa prá mim as melhores lembranças que alguém pode ter quando tem a sorte de ter encontrado em vida alguém assim tão especial, minha irmã escolhida. Se não me deixa as receitas, porque Luisa não é mulher de seguir à risca as receitas, deixa a lembrança dos sabores, que tempo nenhum, dimensão nenhuma pode tirar. E deixa no meu coração o melhor dos ingredientes que se pode ter quando se partilha a mesa com alguém. Deixa uma grande saudade, um desejo de ficar mais um pouquinho, a lembrança do seu sorriso e a alegria de ter tido a honra de ter cozinhado pá ela algumas coisinhas especiais. Para onde ela vai, não serão necessárias as receitas, mas tenho muita fé que ela assim como eu, poderá lembrar-se dos sabores, e revivê-los sempre que precisar desse conforto. Adeus Luisa.
 

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Comentários

  • Deguste
    Ana Teresa disse:

    Que linda homenagem a nossa querida Luisa! Você mostrou q soube aproveitar o melhor dessa amizade e vai levar p sempre no seu coração os encantos e ensinamentos desse "anjo" inesquecível! Bjs

    Responder

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