Reaprender a Sonhar

Fotos: Google/Divulgação

Reaprender a Sonhar

 
Me encontro em Lisboa. Outra vez nesta cidade que me teve como habitante por quatro anos, nesta cidade onde construí fortes amizades, onde aprendi a viver por minha conta e risco e da qual nunca mais consegui me afastar. Volto pra Lisboa há anos, sempre em busca dos velhos sabores, dos antigos perfumes, das emoções que me modificaram uma vez. Como diria uma amiga, eu gosto de passados, e aqui o passado está sempre presente, é só dar uma voltinha em Alfama, no Bairro Alto ou mesma na Avenida da Liberdade, e ele vai estar lá, sempre batendo à porta.
 
Mas às vezes o passado simplesmente não volta mais. Às vezes ele parte e não nos visita mais, e não há saudade que o traga de volta. Não há sardinhas, não há bacalhau, nem mesmo pastéis de nata, que traga de volta o sabor e o conforto desse passado que realmente.... passou. Não há as velhas ruelas, as mesmas calçadas, os antigos caminhos, que nos façam dar os passos já seguidos com tanta segurança. E andar pra frente é o único caminho. E é o tudo o que nos resta fazer, pois o passado pode ser visitado, mas nunca foi um lugar pra se morar.
 
Nunca é fácil sair da zona de conforto, seguir em frente abrindo outras janelas, se permitindo olhar com outros olhos a mesma velha situação, as quase mesmas paisagens. Às vezes, vem o friozinho na barriga, pois a casa que se costumava visitar simplesmente deixou de existir. O olhar surpreendido por uma nova experiência não volta mais. Aí vêm os rearranjos, as mudanças que a gente não se prepara para elas, e a relutância e o apego nos fazendo insistir no que já não é mais possível permanecer da forma que nos habituamos.
 
A sabedoria, diz pra seguir em frente e deixar o tempo passar. Mas na vida, eu aprendi a gostar de participar. Aprendi a gostar de sentir, sabores, perfumes, desejos, pessoas, sentir a vida, pois como já foi dito em músicas, ela é tão rara....E nunca quis apenas deixar passar, por isso me vejo procurando por baixo do véu do passado, uma nova Lisboa pra me apaixonar e felizmente, eu confio e creio realmente de que não existe a menor dúvida de que ela existe, é só se permitir, é só abrir a janela, pois afinal, é quase verão....
 
Verdade que a primeira papoula, a primeira macieira, o primeiro espantalho, a primeira cereja, tudo aconteceu aqui. Mas essa terra é tão rica, a vida é tão rica, o mundo é tão rico. Os limites muitas vezes somos nós que nos impomos e será que o que vimos até agora é tudo que tem pra ser visto, é tudo que tem pra ser visitado, é tudo que tem pra ser sentido? Já numa outra canção (porque tantas são tão verdadeiras), foi dito: “...a história não tem fim, e continua sempre que você responde sim...a arte de sorrir, cada vez que o mundo diz não..”.
 
Que venham os novos velhos espantalhos, que apareçam as mesmas vermelhas cerejas, não tem problema se os passos a serem seguidos nas mesmas calçadas fiquem meio hesitantes, o passado pode ser revisto, pode ser “a saudade que eu gosto de ter”, pode ser pensado como algo que me trouxe até aqui, de volta à mesma cidade que me teve como habitante, mas com a permissividade de fazê-la me mostrar o que de novo existe nos mesmos velhos monumentos. E como sou de canções, aí vai uma outra, afinal “há tanta vida lá fora, aqui dentro, sempre...”.
 

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