Ao mestre com carinho

 A vida é um eterno aprendizado, basta estarmos atentos ao que ela pode nos proporcionar, e termos a humildade de compreender que esse ensinamento pode vir de fontes às vezes muito simples. Em contrapartida muitas vezes, somos brindados com toda a sabedoria de quem realmente se espera, pela cabeça dos grandes mestres, dos grandes nomes por trás dos muitos ofícios, e na gastronomia, algumas figuras são, eu diria assim, mitos, quase deuses. E ao falar em deus deste setor, todo o respeito, inegavelmente para qualquer cozinha e cozinheiro, recai sobre Paul Bocuse. E foi dele, que outro mestre deste mundo e seu discípulo, Laurent Suaudeau recebeu como conselho: ”Chef, retournez a votre cocotte”.

 Voltar às panelas, segundo Laurent, fala muito do momento atual, onde os chefes de cozinha muitas vezes se cercam de tanto empenho que de tão sobrecarregados, terminam por delegar tanto e ficar tão longe das caçarolas que findam por comprometer seu trabalho e fatalmente também o seu nome. Essa nossa conversa se deu oportunamente no momento em que foi divulgada uma sucessão de acontecimentos envolvendo algumas cozinhas de grandes hotéis que foram flagradas com quilos de produtos vencidos em seus estoques, possivelmente pela falta de controle e quiçá de tempo destes gestores da cozinha, difícil de dizer.

 Mas a mensagem ficou clara na minha mente. E conselho de Paul Bocuse, é, senão uma ordem a ser executada, na pior das hipóteses, um motivo para reflexão. Graças aos grandes da Nouvelle Cuisine (Pierre Troigross, o próprio Bocuse) a figura do cozinheiro passou a ter destaque e foram alçados à posição de chefes de cozinha tornando-se conhecidos como artistas e celebridades que passeiam pelo salão. O problema é quando estes chefes passam a se apaixonar tanto pelos holofotes que esquecem o que é mais importante dentro de uma cozinha: as suas panelas, sua brigada, os seus clientes, a quem se deve todo o respeito, e passam a deixar de lado seu verdadeiro ofício, atraídos pela fugaz purpurina, pelo brilho ilusório da fama.

Todo mundo quer reconhecimento, e naturalmente, em se tratando de business, marketing pessoal é obrigatório. Mas há algo que se possa mostrar mais de um cozinheiro que a sua própria comida? Ela não fala por si só? Não é ela que tem que ser a protagonista de uma cozinha? Somos executores, estudamos para isso, temos obrigação de fazer bem feito, é nossa responsabilidade. Hoje as faculdades existem formando um sem número de profissionais, que se naturalmente não saem prontos, recebem informações suficientes para trilhar um caminho de sucesso se assim o desejarem e se tiverem a humildade de compreender que estão apenas no primeiro degrau de uma escada que nunca chega ao fim.

Voltemos então para a cozinha. Para a execução laboriosa, para o entendimento da cocção bem feita, para o desenvolvimento das técnicas aprendidas. Tenhamos a modéstia de ficar em segundo plano, depois do produto final, deixemos brilhar nossa comida. Voltemos para nossas panelas. Sucesso é a consequência de um serviço bem executado. E é nas nossas panelas que se está o brilho. E, Mestre Laurent, seu brilho ultrapassa seu talento mostrado nos seus pratos. Está também na generosidade do ensinamento que se espera dos grandes nomes deste ofício. E eu esperava!
 

 

  

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