A escolha

Fotos: Divulgação

 

A cozinha, o processo de elaborar um prato, pode lhe levar para inúmeros caminhos. Independente de tudo que se tem que levar em conta, em relação à disponibilidade de produtos, existe muitas técnicas e um sem número de utilitários e produtos particulares que podem lhe levar para uma opção ou outra. Ultimamente tenho refletido sobre as escolhas que fazemos, os riscos que corremos ao decidir um caminho em prol de outro.  
 
Vamos combinar que cozinhar em escala industrial, nunca é fácil. A profissão de Chef de cozinha é por si só, pela pressão, pelo stress, pelo calor, difícil. Mas ela pode ser mais ou menos difícil a partir dos caminhos que decidimos, pelo tipo de cozinha que optamos em executar. E me pergunto por vezes, se não seria mais inteligente, escolher o caminho, por assim dizer, mais fácil, mais executável, mais possível dentro de um determinado contexto? Não seria infinitamente mais simples limitar-se ao que temos acesso, ao que se tem à mão?
 
Talvez a resposta mais óbvia seja um sim, que se deve limitar-se ao seu entorno. Mas o que fazer, quando você descobre que fora desse entorno existe um mundo de possibilidades? O que fazer ao se perceber que a cozinha apresenta uma infinidade de técnicas a serem exploradas, um sem número de processos ainda não experimentados dentro do universo que se vem vivendo e que há sim, muito ainda a ser visto e muito ainda a se aprender? Você ignoraria o que viu e continuaria no seu habitual ou arriscaria tentar aplicar o que sabe existir? Parafraseando Roger Waters : “Você trocaria um papel de coadjuvante numa guerra por um papel principal numa cela” ?
 
O caminho mais fácil não é necessariamente o mais interessante. Pela minha natureza, eu prefiro estar nas trincheiras, eu prefiro participar a assistir, embora isso, confesso, dê um trabalhão danado. E o trabalho, a que me refiro, é pelo fato de ter ainda muitas vezes, de se plantar a mandioca para fazer a goma da tapioca. Ainda temos acesso a pouca coisa por aqui, apesar de toda globalização, e correndo o risco de parecer pretensiosa, ainda não estamos a par de muito que se faz nas cozinhas do mundo, e ainda não conseguimos contar com muitos produtos que seriam facilitadores para se executar um trabalho com mais qualidade. 
 
Mas paralelamente, ou paradoxalmente, temos um público permissivo, ávido por novidades, e no meu entendimento, seria desleal ter a possibilidade de compartilhar o que se sabe existir, e sufocar esse desejo pela dificuldade que ele representa. Eu acredito que partilhar é uma maneira de somar, que um cozinheiro não se faz sozinho, que se p que ode desejar sempre o melhor, que se deve sempre fazer bem feito, e que todo mundo sai ganhando quando se pensa em evoluir, em se superar. E trata-se de superar a si mesmo, não de disputar. Trata-se de ser fiel a seus princípios, de atender a sua própria inquietude, essa inquietude que pode nos levar além, que nos faz crescer como profissionais.
 
Penso e desejo que a busca pelo novo, o sair de dentro da caixa, é necessário mesmo se correndo riscos. Não é consenso universal, nem precisa ser, afinal, em tempos de eleições, viva a democracia, mas sendo pessoal, que se siga o coração, pois ele nunca erra. Certamente existirão aqueles que se sentirão tocados pelo processo que se escolheu, que perceberá a talvez ousadia e se sinta gratificado por ela. E então, você se reconfortará com o nobre sabor de se ter cumprido o que se prontificou. E é tão bom sorrir antes de dormir para a sua consciência.
 
 

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