Natal, 18 de março de 2010

Sabores de Portugal

10/03/2010 às 16:17:33


Um amigo me ligou informando que estava de malas prontas para Portugal. Como aquele país foi minha residência por quatro anos, começamos a conversar sobre o tema e dei uma listinha básica de termos cotidianos para se fazer entender em restaurantes e cafés. Aí me lembrei de quão diferente é a nossa (mesma) língua. Em Portugal, diz-se que falamos brasileiro. Com razão, pois o nosso português é mesmo muuuuito diferente. E como a língua madre é deles... Falamos brasileiro, ora pois!

                                                                                 Foto: Divulgação/Google

Pois bem. De manhã, ao pequeno almoço (pois em Portugal tomam-se pequenos almoços ao invés de café da manhã) o mais comum é se pedir uma bica com um queque. A bica, já se sabe, é um expresso curto, está claro. O queque é um bolinho parecido com um muffin. Quem preferir pode pedir meia de leite ou um galão. Os dois são café com leite, mas o galão é servido em copo americano. A meia de leite é mais chique, imagino, uma vez que vem na xícara. Eu tomava a minha meia de leite com uma tosta mista, que é a nossa torrada.

Tostas, por sinal, são servidas também em bares. Particularmente, sempre achei esquisito se comer uma torrada em bares, mas enfim, cada lugar com suas manias. Se não lhe apetecer uma tosta, pode-se pedir uma sandes. Aliás, em Portugal se faz sandes de tudo, até de bife à milanesa e também de omelete e você também pode optar por um prego (bife) no pão ou prego no prato. Adorava aqueles sanduíches de bife que podiam ser de bifanas, muito comuns nas saídas dos estádios do Benfica e do Sporting. Na rua, fica um cheiro no ar daqueles filezinhos de porco sendo grelhados no carvão. Divinos. E em bares também se toma as geladas e boas imperiais: o nosso chope.

No almoço, o prato comercial é o bitoque, que é um bife com batatas fritas e um ovo estrelado. Em alguns restaurantes acompanha um pouco de arroz e em alguns casos pode vir uma saladinha, mas não é o mais comum. Um hábito das famílias portuguesas é tomar a sopa no almoço como entrada. Eu resistia bravamente, pois achava que se tomasse a sopa, não conseguia almoçar e geralmente eu estava certa, principalmente se fosse sopa de pedra, que é muito comum no Ribatejo e tem como base feijão. Depois disso, como encarar uma carne com batatas fritas?

Aliás, em Portugal as opções de sopa são inúmeras. Meu conhecimento de sopa era bem limitado, talvez três ou quatro, aquelas que comumente são feitas em casa, mas lá.... Sopa de grelos, caldo verde, sopa de brócolos (é mesmo brócolos), sopa alentejana, sopa de castanhas, sopa de peixe. E por falar em peixes. Na época das festas dos Santos Populares, nossas festas juninas, todas as tascas e restaurantes do bairro de Alfama exibem orgulhosamente suas grelhas sobre carvão e grelham as frescas sardinhas. Também é praxe, principalmente entre namorados, se presentear com vasinhos de manjericos (manjericão) com dizeres engraçados. O meu não durou muito, pois diz-se que colocam sal para murchar logo e os apaixonados comprarem um outro.

Não obstante, as diferenças percebidas na mesma língua, o fato é que a satisfação ao se degustar um bom prato é sempre compreendida, pois o sorriso de prazer que indica que se está satisfeito com o pedido é universal. E essa barreira, eu acredito, se derruba facilmente no (nem sempre simbólico) lamber o prato. Ora pois!
 

Minha lista de pratos

18/02/2010 às 16:43:35

Foto: Divulgação/Google   


Quando o ano começa, a coisa mais comum é se deparar com listas e mais listas de todo tipo de desejos, esperanças, promessas, até aquelas que invariavelmente iremos quebrar, mas que na virada do ano desejamos fortemente acreditar que desta vez é possível que se cumpra...

Mas, o gostoso destas listas é a fé renovada e o mundo aberto das possibilidades. Pensando nelas, me deparei refletindo que, se fosse possível, qual a lista dos pratos que eu comeria ao longo do ano? Para ficar mais engraçado, pensei que se isto pudesse ser feito de uma forma em que não houvesse limites de épocas, espaço, o que eu comeria?

Minha lista, com o número de dez como é de praxe, incluiria pratos que me despertam curiosidades e não necessariamente que eu tenha a crença de serem saborosos, apesar de com a fé de começo de ano, desejar que sejam. Assim, gostaria muito de comer os brioches, aqueles franceses, mas da época da rainha da França, a austríaca Maria Antonieta, aqueles mesmos que, reza a lenda, a imortalizou com a frase feita ao povo faminto: “se não têm pão, que comam brioches”. Na minha imaginação, talvez por influência do filme de Sofia Coppola, eles devem ser divinos.   

Com certeza comeria qualquer prato de François Vatel, o inventor do chantilly, cozinheiro real que de tão perfeccionista suicidou-se por causa de um atraso de uma encomenda para uma das suas iguarias. Exigente, não? Sem dúvida gostaria de provar o Canard  à la presse, do emblemático restaurante parisiense La Tour d’Argent, prato que desde 1880 recebe um número correspondente. Um luxo.

Comeria, com muuuuito prazer, todos os atuais menus degustações, estes realmente por acreditar serem uma maravilhosa experiência gastronômica, uma brincadeira (afinal comer pode ser apenas uma diversão) dos poderosos Ferran Àdria e Heston Blumenthal, preferencialmente aquele que vem com iPod para ouvir o barulho do mar enquanto se degusta o prato. Sou do modelo que me permito ao menos experimentar. E lógico, o menu degustação do meu ídolo Alex Atala, que colocou a cozinha brasileira num altíssimo patamar: 24º do mundo!!! Ele pode mesmo. Bem, esse é o sexto, mas não necessariamente por ordem de preferência.

Faltando quatro, começo a perceber que tenho desejos por muito mais. Como não desejar um dos éclairs au chocolat do mito da gastronomia, Paul Bocuse, um dos criadores da nouvelle cuisine cujo livro de pâtisserie me fez tremer de emoção, e cujo personagem foi chamado por Ferran Àdria de deus? E também, como não desejar as codornas em sarcófago do filme Cult: “A festa de babette”?

Como começo a ficar pretensiosa, ao vislumbrar que tenho apenas duas escolhas, me imagino comendo o tal do manjar dos deuses, afinal, quero também alimentar o espírito, e talvez ainda pela ressaca natalina ainda me perseguindo, ou por pura falta de modéstia mesmo, participando como convidada, da última ceia de cristo. Não sei mesmo o que comeram, mas ao menos beberia um vinho no Santo Graal. Afinal, se é para sonhar, por que não?

Raridades na cozinha

26/01/2010 às 17:17:13


No livro “Los secretos de El Bulli”, o melhor cozinheiro do mundo, Ferran Adrià, pergunta: “O que é raro na cozinha?”, e discorre sobre alguns exemplos que se verificam pelo mundo afora. Os franceses amam escargots, os mexicanos suportam muito mais as pimentas, os chineses são famosos por consumirem cachorro e um monte de bichos que considero peçonhentos, como escorpiões, cigarras, bichos da seda. Uma amiga me informou que, em uma viagem ao Camboja, verificou que aranhas se transformam em um prato, não imagino como, bastante apreciado.

Apesar da observação, quando morava em Lisboa, chegava a sonhar com caranguejo, desejava desesperadamente as férias no Brasil e o momento de poder me deliciar com esta iguaria. Bem, realmente não posso afirmar que este seja de fato um bicho bonito de se colocar à mesa, pois lembra de verdade uma caranguejeira, mas, eu adoro e ponto. Nestes dias de janeiro, dirigi até a Barra do Cunhaú, com minha sobrinha e seu esposinho sueco, para comermos goiamum. Ele me dizia que aquilo ali era quase como comer uma formiga gigante. Penso que o mundo se mostra através da gastronomia. Mas até que ponto os hábitos culturais interferem no gosto pessoal de cada um de nós? 

Ainda em Lisboa, me permiti viver algumas aventuras gastronômicas. Assim, determinada, resolvi encarar aqueles pequenos caracóis. Foi uma aventura para mim, pois é muito comum em Lisboa comer caracoletas como aperitivo. Também o que me pareceu muito inusitado foi um saboroso doce de tomate, feito por uma senhora muito querida, doceira de mão cheia, numa cidadela cujo nome não recordo. Apesar de nunca ter imaginado tomates como doce, achei delicioso.

Nem sempre é preciso se falar de experiências gastronômicas tão radicais. Recentemente, outra amiga recebeu aqui alguns conterrâneos de sua distante terra natal. Para agradá-los, levou-os para almoçar num restaurante típico daqui. Soube que nosso amado pirão foi veemente recusado, pois foi catalogado como “água suja” com algum espessante esquisito. Impressão parecida, eu tive ao conhecer Açorda, prato de referência em Portugal, mas adorei. Noutra ocasião, eu que adoro tapioca, resolvi levar a goma para Lisboa, pois saudosista, passava a vida a contar no escritório as suas maravilhas. Marquei dia e hora para fazer para os amigos a deliciosa tapioca. Não fez o menor sucesso. Fiquei arrasada.

Somado às questões culturais, existe também o gosto pessoal de cada um. Mesmo aqui, terra de pratos fortes, o sarapatel com certeza não é unanimidade. Mas, como diz o mestre Ferran Adrià, uma das magias da cozinha é precisamente a diversidade dos gostos. E eu, como humilde discípula apenas concordo.  E desejo continuar viajando, através da cozinhas do mundo, me permitindo até quebrar minhas barreiras herdadas quando acreditava que só existia no mundo, aquilo que eu conhecia.
   
   

Presentes de Natal

06/01/2010 às 09:41:58

Natal, época de amigos secretos, de presentes diversos, uns bem pessoais, outros nem tanto, correria, lojas cheias, estacionamentos lotados. Aí, depois da missão cumprida, depois de ter conseguido contemplar com presentinhos todos os que estavam na lista previamente elaborada, vem os dias que se seguem à ressaca do natal e ano novo (que, com sorte, pode ser só das compras) e surge aquela dúvida: será que o que se ofertou foi mesmo o presente certo, aquele que fez os olhos do outro brilhar? Na correria do dia a dia, os presentes nem sempre conseguem “ter a cara” de quem o recebe, o que é uma pena, pois é sempre tão gostoso ver a cara de quem está recebendo um presente que toca o coração. Qual é o presente inesquecível? Qual objeto de desejo que nos faz perder a cabeça?
 
Não era em época de natal, era mais uma aventura de final de semana, mas na minha infância, de vez em quando eu era acordada antes das cinco da manhã, para fazer uma longa viagem. Tinha sono, mas não podia perder a oportunidade. Eu ia para Goianinha, mas precisamente para a feira que acontecia (e ainda acontece) aos domingos. O que me motivava a acordar assim tão cedo num domingo? P-A-N-E-L-I-N-H-A-S.

Não existia nada de mais maravilhoso para mim do que escolher aquelas panelinhas de barro de formatos diferenciados, onde eu começava a imaginar o que poderia ser cozido. Em algumas mais fundinhas, o feijão verde; nas mais rasas, uma carne; algumas travessas para servir o arroz que, claro, eu iria surrupiar da cozinha, já pronto, pois ainda não tinha conhecimento das infinitas possibilidades que tem o arroz, e não achava muita graça em fazê-lo. Quando chegava em casa, tinha como missão encontrar algum adulto que pudesse inspecionar as tarefas para que elas pudessem ser executadas. Crianças e fogo só com um adulto a tiracolo.

Na adolescência, como eu era boa em desenho, comecei a fazer aulas de pintura em porcelana. E na aula, que só tinha adultos, por sinal, a professora, depois de me apresentar às tintas em pó, abriu um enorme armário para mim. E o que tinha dentro? P-A-N-E-L-I-N-H-A-S. Lindas, só que não eram mais de barro, dessa vez elas eram brancas, lisas, delicadas de todos os formatos. Ovais, redondas, com tampa, sem tampa, com pés, bordados, relevos... E ali eu podia pintar o que bem entendesse. Ia pra casa já pensando na próxima escolha que faria, e o meu maior prazer, nem era escolher o tema a ser pintado, era poder abrir de novo aquele armário e escolher qual seria a peça que eu selecionaria para aquele dia. E era uma dúvida... Posso escolher três, hoje? Era meu pensamento mais secreto.

Cresci, aprendi a cozinhar um pouco mais que feijão verde e arroz, e pintar um pouco mais que flores, mas o fascínio pelas panelinhas não morreu. Persiste a mesma sensação de encantamento e, por alguma razão, ainda perco o juízo ao entrar numa loja e me deparar com elas. Nem sempre brancas e nem sempre de barro, às vezes de cobre, às vezes de alumínio... Nem sempre só panelinhas, às vezes colheres, outras vezes, pratos. Mas a mesma magia. Consigo ainda sentir ao olhar para elas a mesma sensação daqueles dias. A mesma motivação que me levava a acordar aos domingos às cinco da manhã me acompanha ao me deparar com elas. E a mesma magia aparece todas as vezes que escolho uma peça e começo imaginar que guloseima eu poderei servir nelas. E penso o quanto é gratificante ofertar, principalmente o que toca o coração. Talvez por isso eu cozinhe, pois não é essa, uma forma linda de se presentear? 

Clássicos são clássicos

16/12/2009 às 17:15:00

Outro dia, conversando com amigos, comecei a pensar nas possibilidades de se efetuar um determinado prato, um clássico. Pensei nos seus ingredientes, seu sabor, na sua apresentação e nas interferências que eram possíveis fazer na sua composição. Imaginando todas essas possibilidades, fiquei intrigada em saber se ao retirarmos ou acrescentarmos alguns ingredientes ou ainda mudarmos sua apresentação ele poderia continuar levando o mesmo nome.

Lembrei de um dia, em Florianópolis, quando estava em um café muito simpático que costumava frequentar quando ia ao centro da cidade tratar de assuntos da faculdade. Eu estava tomando meu expresso quando ouvi um senhor pedir à atendente um cappuccino. Sentou-se em uma mesa e, depois de um tempo, foi-lhe servido um belo cappuccino com o leite bem espumado sobre o café.

Qual não foi minha surpresa, quando ouvi o senhor reclamar em alto e bom som para a atendente que havia pedido um cappuccino e não café com leite. Como?! Será que este senhor sabia o que estava pedindo? Será que este senhor conhecia de fato um cappuccino? E, no decorrer da conversa, entendi que ele desejava uma daquelas misturas prontas que os supermercados nos apresentam como cappuccino, cheias de ingredientes misturados ao café com leite.

Na Itália, fazer um cappuccino é uma arte. Existem vários fatores a serem considerados, e os baristas o conhecem muito bem. A temperatura exata do leite e do café, a proporção correta destes dois ingredientes, a vaporização do leite. Existe, inclusive, uma técnica conhecida como latte art, que consiste em fazer desenhos e formas à medida que se vai derramando a espuma do leite sobre o café.

Acho que a cozinha está sempre em renovação. Acredito ser saudável e inevitável que ela evolua. Mas alguns clássicos já foram criados, denominados e suas nomenclaturas contam sempre uma história, geralmente bem bonitas. O carpaccio leva este nome em homenagem a Vittore Carpaccio, pintor renascentista que usava com abundância a cor vermelha em seus quadros.

O cannard a la prese, servido no restaurante Tour D’Argent, em Paris, é até hoje um prato numerado, e é possível saber quem comeu o de número 25, o número 532 e até o 19823, figurando entre seus degustadores gente como Charles Chaplin, Elizabeth Taylor e Grace Kelly, que, por sinal, comeu o prato de número 496516.

Recriá-los é sempre possível, mas isto certamente os descaracteriza. Não sou purista ao ponto de acreditar que são intocáveis. Confesso que me divirto em recriar pratos. Só acredito que devem ser renomeados para evitar confusões. Por que não cappuccino brasiliano ou qualquer outra coisa? Mas que fique claro que o que se vai ingerir não é exatamente aquilo que atravessou décadas e que estes são o que são ao longo da vida por serem muito especiais.

Além disso, ao ficar claro que cappuccino é cappuccino, coq au vin é coq au vin e baião-de-dois é baião-de-dois, estamos perpetuando a cultura gastronômica de um povo, as suas raízes, suas misturas, sua história. Inclusive as dos pratos que ainda iremos inventar. Então, viva o petit gateau de feijão verde, que conta a historia da fusion cuisine, sinal dos nossos tempos.

 

O fator surpresa

02/12/2009 às 20:31:49

Algumas pessoas, gourmets audaciosos, têm informado o quão se delicia ao serem surpreendidos quando recebem um prato que pediram ao garçom em restaurantes por aí afora. Particularmente, considero, no mínimo, instigante. Gosto de surpresas, mas nunca esqueço a primeira vez que comi um pastel de nata, talvez o mais famoso doce português.

Eu trabalhava num escritório de Arquitetura e desci para almoçar com minha colega de trabalho. Eu recém chegada à terrinha, não tinha a menor idéia do que pediria para almoçar, e resolvi, para não errar, imitar a minha amiga e pedi então uma salada e um pastel de nata. Na minha mente se desenhou um pastel frito recheado de natas de Caicó. Assim, quando o recebi e vi que o pastel tinha o formato de empada, me surpreendi, e quando o coloquei na boca, era... doce?! E eu pretendia que fosse o meu almoço!

Não era a surpresa que eu esperava, mas quando me acostumei, passei a ser uma consumidora voraz de pastel de nata, mas nunca para almoçar. Assim, compreendo o quão agradável é ser surpreendida ao ordenar um prato, e aguardar o que o chefe de cozinha nos preparou, mas o fator surpresa, na recepção de um prato, é sempre bem vindo? Até que ponto pode agredir ou encantar?

Penso que nos tempos de globalização, a cozinha ficou mais permissiva, com espaço para a tão celebrada Fusion Cuisine, onde cozinhas de todo o mundo se apresentam no prato a ser preparado, e pela qual sinto uma grande curiosidade e simpatia. O problema é quando a fusion se torna confusion, e os ingredientes começam a brigar entre si, cada um querendo aparecer mais que o outro no mesmo prato, loucos para se sobressair gerando fatalmente aquele tipo de surpresa que muitas vezes simplesmente decepciona.

Na confecção de um prato, tal qual num filme, tem-se que eleger o ator principal, ou seja, o ingrediente, o produto que vai brilhar aquele que deve ser o protagonista e os demais, como bons coadjuvantes devem ser colocado de forma a fazer com que o item principal brilhe. Devem servir de suporte para engrandecer as qualidades do ingrediente que normalmente dá nome ao prato.

Numa cozinha criativa, o fator surpresa é inerente. E para um chefe, ao utilizá-lo sistematicamente, acredito ser o melhor exercício e também um desafio. Entretanto, acredito que deve existir respeito pela cultura do local onde a cozinha está se desenvolvendo ao inseri-lo, assim como pelo público consumidor. Acredito que ao utilizá-lo, também se deve fatalmente levar em consideração o uso de produtos locais, certamente os melhores para serem consumidos, pelo frescor. Inserir com sabedoria o fator surpresa dentro de um cardápio afasta o que considero ser o pior inimigo de qualquer chef criativo: a mesmice.


Sessão de cinema

18/11/2009 às 18:31:22

Uma das coisas que amo nesta vida, além de cozinhar, é assistir filmes. Encantam-me as histórias, as montagens, os figurinos. Encantam-me a ideia, as sutilezas, assim como a direção, pois, tal como um prato, é possível fazer muita coisa com os mesmos ingredientes. E um bom filme para mim é o ofício de saber juntar bem os ingredientes que se tem na mão, a história, a luz, os atores, a trilha sonora, e oferecer um bom, senão excelente, produto final.

Filmes bons, para mim, são para serem revistos de tempos em tempos, pois sempre vai lhe tocar de alguma maneira e algumas vezes irão proporcionar outro ponto de vista. Dentre os meus favoritos, destes que assisti acima de dez vezes, está Billy Elliot.  E existe uma explicação para que ele me toque tanto.

Quem já viu o filme, sabe da determinação quase ingênua do garoto para se tornar um bailarino. Penso que ele nem sequer entende exatamente por que insiste tanto em ser algo que vai contra tudo o que se podia desenhar para ele na situação em que ele vive. Mas, de alguma forma inconsciente, ele sabia do qual ele queria fazer parte.

Então, num dia, ele vai à Escola de Balé. E ali, no meio de pessoas circulando com suas roupas características, ele se encontra. Penso o quão maravilhoso é você se encontrar na vida. Você saber que aquilo para o qual nasceu aparece na sua frente com uma clareza que até assusta.

Eu acabei de voltar de São Paulo. Fui para o evento da revista Prazeres da Mesa ao vivo. Além de xeretar, fui para o lançamento do livro do chef Carlos Ribeiro, do Na Cozinha, e participar da montagem das oficinas dele. Eu estava bem cansadinha, pois saí direto de um evento para pegar o avião, e foi no avião mesmo que dormi.

Entretanto, algo de mágico aconteceu quando entrei na cozinha. Vivi meu momento de Billy Elliot. Senti que ali era um ambiente ao qual pertenço. É minha tribo, onde me encontro e me sinto parte dele.

Lembrei do meu primeiro dia de aula prática na faculdade de gastronomia em Florianópolis. Todo mundo caminhando para o vestuário, trocando de roupa e seguindo depois para a cozinha com nossos impecáveis dólmãs, toques e aventais, orgulhosos da nossa futura profissão. Senti saudade, mas aquela saudade, que como diz Roberto Carlos “que eu gosto de ter”. 

Reconheço que é um trabalho árduo, um ambiente nervoso, quente, estressante, que nada tem do glamour que se vê em alguns filmes, mas, apesar de tudo isso, eu sou apaixonada pelo ofício. E como diria Confúcio, “escolha o trabalho de que gostas e não terás de trabalhar um único dia em tua vida". Eu, como Billy Elliot, tenho a sorte de fazer o que gosto.

* Para comentar, clique no título dos posts

Minha primeira vez

16/11/2009 às 16:06:04

Inicio minha experiência como colunista e, buscando um assunto para compartilhar, imaginei quão marcante é nossa primeira vez. Assim, pensei em compartilhar as minhas primeiras sensações gastronômicas, pois acredito ter sido graças a elas que descobri a minha verdadeira paixão: a cozinha.

Sempre tive curiosidade sobre sabores. Lembro de sempre estar metida nas cozinhas de casa, implorando para temperar os bifes, assim como nas cozinhas das casas de tias, ajudando a segurar a tigela de bolos, só para receber como recompensa o direito de raspá-las. Também me intrigava os gostos particulares, por que um primo só comia arroz com caldo de feijão, descartando os caroços e me perguntava por que minhas tias precisavam ser enganadas para provar jias, imaginando que comiam frango. Ou por que o pimentão recheado com carne moída me fascinava tanto pelo aroma, a ponto de eu decidir que um dia eu ia amá-lo.

Mas um dia, provavelmente por volta dos sete, oito anos, fui apresentada ao ceviche. Talvez essa seja a minha lembrança mais remota de ter conhecido um prato distante da minha realidade. Na época, ceviche estava longe de ser um prato conhecido. Hoje é até muito amado, tanto no Peru, como em outras cidades do mundo, a exemplo de São Paulo, onde todas as cozinhas do planeta se encontram.

Meus pais tinham recebido uns amigos peruanos e a bela senhora, que se chamava, salvo engano, Marisa, resolveu lhes apresentar um prato típico da culinária da pátria deles. Fiquei de espectadora enfiada na cozinha, participando do processo. O corte finíssimo das cebolas, a quantidade de limão utilizado. Lembro de ter esperado com muita euforia e excitação o momento em que o peixe se transformaria, pois ela tinha informado que ia ficar cozido, mesmo sem ser levado ao fogo.

Quando finalmente ele ficou pronto, para mim, tinha acontecido uma mágica: os cubos de peixe transparentes, depois do período de descanso na geladeira curtidos no suco de limão, tornaram-se brancos e rijos. Adorei aquele gosto cítrico, o cheiro da salsinha, aquela magia da transformação. O que me encantou nesse prato simples foi exatamente o inesperado, o estranhamento.

Evidente que, até os oito anos, meu conhecimento gastronômico era muito limitado, e com certeza o fato de ter conhecido naquele momento outro método de cozimento sem a necessidade do fogo me fascinou. E então comecei a entender que a cozinha era muito ampla, muito maior que os metros quadrados da cozinha de minha casa e de familiares, e que talvez não houvesse espaço para preconceitos.

Confesso que não sou tão destemida a ponto de comer escorpião ou grilos fritos, mas admito que sinto curiosidade por pratos do mundo, quando me aventuro em provar outros sabores, pois acredito que o mundo se mostra através da gastronomia, com suas cores, seus cheiros e suas particularidades.

E adoro viajar. Sou dessas turistas que visitam supermercados. Quando chego a outra cidade ou outro país tento me inserir no meio, participar do lugar, e acho que comer os pratos locais faz parte do processo. Com limite, claro. E o que é o limite? Bem, isso é outra história.

* Para comentar, clique no título de cada post

Copyright © RevistaDeguste.com - Todos os direitos reservados.