Natal, 11 de março de 2010

Give pigs a chance (2)

29/01/2010 às 17:42:33

Foto: Divulgação


Talvez seja pela saturação das infinitas lágrimas derramadas sobre o sofrimento dos animais, mas uma coisa está certa: uma filosofia neocarnívora começou produzir pensamento e cultura. “Fleishgeist”, isto é, Espírito Carnívoro dos Tempos é um conceito que expressa reação ao enfraquecimento das categorias de hoje. Uma tentativa, meio que paradoxal, de se agarrar a valores fortes.

Se o vegetarianismo é objeção de consciência alimentar, esse conceito é uma afirmação de “guerra justa”, que prevê a honra das armas do adversário. Uma homenagem ao espírito do animal abatido, que remete à sociedade de caçadores, a valores perdidos e saudosos. E tem mais: em afirmar com força a intensidade da carne e do imaginário a ela ligado, há um chamado para reencontrar os valores da cultura ocidental, negligenciados em favor de exotismos de ashram, de orientalismos ascéticos e, não raramente, esnobe.

A carne é parte integrante do imaginário religioso do mundo ocidental: o corpo de Cristo, o cordeiro de Deus, “quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna”. Os símbolos que carregamos lá no fundo remetem ao sacrifício e ao consumo do sacrificado.

Essa tendência anima o debate em revistas de referência: por exemplo, “BEEF!”, revista alemã, 100 mil cópias vendidas a cada três meses e “Meatpaper” que, não por acaso, nasceu naquele berço das culturas do amanhã que é São Francisco, na Califórnia. “Meatpaper” se define como “um jornal de cultura da carne, nascido para explorar e contar uma nova curiosidade, não tanto sobre o que tem num cachorro-quente, mas sobre como foi criado, de onde vem e o que significa comê-lo”.

Segundo as fundadoras Sasha Wizansky e Amy Standen, a revista é um sismógrafo da “Fleishgeist”. Interessante é que ambas as diretoras são ex-vegetarianas, mas vegetarianos são também parte de seus leitores. Paradoxo aparentemente parcial, porque as filosofias neocarnívora e vegetariana em uma coisa compartilham: a concepção quase sagrada do animal. No caso dos carnívoros, essa impõe o abate, que se torna ritual, e um respeito do corpo do animal sacrificado que exige que nada seja desperdiçado.

Uma das ícones dessa nova filosofia é o açougueiro Tom Mylan, que trabalha no açougue Marlow & Daughters em Nova Iorque. Ex-vegetariano, Mylan é um crítico ferrenho das carnes industrializadas e atualmente dá cursos concorridíssimos de corte de animais; defende o aproveitamento máximo da carne e os tratos humanitários na criação e abate dos animais.

 

Give pigs a chance (1)

28/12/2009 às 18:27:44

Os flexitarian não comem carne, mas abrem exceções para carne branca, se forem certos de sua precedência; os demi-veg são vegetarianos part-time; os pescetarian ou fishitarian dizem não à carne, mas sim ao peixe, sem remorsos; os green eaters  limitam-se a comer prevalentemente “verde” e há até os less-meatarian ou meat-reducer: para eles a questão não é reduzir o sofrimento do animal, mas alimentar-se de forma mais saudável e com menos impacto ambiental.

Essas novas correntes fazem parte de um rio que vem de longe: de Pitágoras e de Sócrates que, quatro séculos antes de Cristo, já se questionavam sobre a sustentabilidade de criar animais e de seus danos para a agricultura e a paz social.

Hoje, a contraposição frontal dos vegetarianos contra o consumo de carne transformou-se em um universo caótico, de tendências contraditórias. Um dos lemas desse universo diz que feijão e afins contêm proteínas não-violentas: estamos numa época não de grandes, mas pequenos ideais. Passamos do “Give peace a chance” para “Give pigs a chance”. Talvez tenha chegado a hora de perguntar se ser vegetariano é ainda uma questão ética ou se está inclinando para uma estética.

Nossa sociedade secularizada faz do narcisismo de massa sua identidade. O corpo é nosso horizonte, a aparência nos define. Ficamos vegetarianos a ínterim, mobilidade e flexibilidade entraram também na alimentação: se diz não à carne e sim ao sushi.

O sushi é uma experiência estética que agrada também aos vegetarianos porque é ascética, aparência, comida incorpórea, e desmaterialização e velocidade são condições de hoje. A inconsistência agrada, numa época escassa de idéias fortes. Além do mais, o peixe não é “pessoa”, é morfologicamente muito distante de nós para que possa provocar sentidos de culpa: é sem sabor e politicamente correto.

A carne, ao contrário, é objeto de um neo-proibicionismo ao qual se opõe uma frente forte e agressiva.

Profetas na cozinha

11/11/2009 às 15:31:00

Foto: Divulgação
Greta Scacchi, atriz

“Preferimos estar nuas a usar peles". Assim dizia a campanha que a supermodelo Naomi Campbell abraçou 15 anos atrás. Hoje, a atriz e modelo Greta Scacchi aparece nua com um bacalhau nos braços para promover o filme ‘Fim da Linha’, que revela o impacto negativo da pesca intensiva no mundo. Paul McCartney e sua filha Stella são defensores firmes do vegetarianismo e de um dia da semana sem carne. Celebridades como exemplo de food fighters, combatentes das causas alimentares.

Hoje, a comida tem a ver mais com política, estética, militância, paixão do que com gosto. É um terreno de batalhas sociais e culturais, com suas obsessões e convicções, onde não se pode não ter uma opinião. O ‘The New York Times’ colocou na capa de seu recente especial sobre comida “Contra a carne” o último livro de Jonathan Safran Foer, “Bancos da comida californianos”, e as 20 proibições recomendadas pelo jornalista Michael Pollan, autor de “O dilema do onívoro”. A comida está na primeira página e tudo indica que vai ficar.

As sociedades pouco complexas desenvolvem relações elementares com a comida, mas a sociedade ocidental não tem o problema da fome há muito tempo: por isso construímos em volta da comida tantos significados culturais. Não é um caso que somos uma sociedade que gasta muito para “não” comer, diferente daquelas passadas, que usavam o pouco dinheiro que tinham para se alimentar. Construímos percursos, discursos, sonhos e pesadelos. Assim, por trás das dietas, se esconde uma ética e uma ascética. Se pensarmos no culto à magreza de hoje, encontramos frequentemente uma mortificação do corpo.

Pessoas que não são de fato magras se condenam a privações, proibições de comidas que frequentemente dão prazer. Escolher de comer certas comidas ao invés de outras satisfaz, mais do que nosso paladar, nossas obsessões. Vivemos em um mundo onde não conseguimos controlar nada, que nos torna inseguros. Muitas pessoas combatem a própria ansiedade tentando eliminar algo, demonizando-o: “Não como isso ou aquilo porque não sei quem e como o produz”.

E nessa mudança de valores acontece algo aparentemente esquizofrênico: algumas comidas tidas como vilões até o passado recente (o chocolate, por exemplo) agora têm suas virtudes declamadas. A comida serve para construir mensagens, para falar a nós mesmos e aos outros: toda escolha, ou não escolha, declara aquilo que somos e pensamos.

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