Natal, época de amigos secretos, de presentes diversos, uns bem pessoais, outros nem tanto, correria, lojas cheias, estacionamentos lotados. Aí, depois da missão cumprida, depois de ter conseguido contemplar com presentinhos todos os que estavam na lista previamente elaborada, vem os dias que se seguem à ressaca do natal e ano novo (que, com sorte, pode ser só das compras) e surge aquela dúvida: será que o que se ofertou foi mesmo o presente certo, aquele que fez os olhos do outro brilhar? Na correria do dia a dia, os presentes nem sempre conseguem “ter a cara” de quem o recebe, o que é uma pena, pois é sempre tão gostoso ver a cara de quem está recebendo um presente que toca o coração. Qual é o presente inesquecível? Qual objeto de desejo que nos faz perder a cabeça?
Não era em época de natal, era mais uma aventura de final de semana, mas na minha infância, de vez em quando eu era acordada antes das cinco da manhã, para fazer uma longa viagem. Tinha sono, mas não podia perder a oportunidade. Eu ia para Goianinha, mas precisamente para a feira que acontecia (e ainda acontece) aos domingos. O que me motivava a acordar assim tão cedo num domingo? P-A-N-E-L-I-N-H-A-S.
Não existia nada de mais maravilhoso para mim do que escolher aquelas panelinhas de barro de formatos diferenciados, onde eu começava a imaginar o que poderia ser cozido. Em algumas mais fundinhas, o feijão verde; nas mais rasas, uma carne; algumas travessas para servir o arroz que, claro, eu iria surrupiar da cozinha, já pronto, pois ainda não tinha conhecimento das infinitas possibilidades que tem o arroz, e não achava muita graça em fazê-lo. Quando chegava em casa, tinha como missão encontrar algum adulto que pudesse inspecionar as tarefas para que elas pudessem ser executadas. Crianças e fogo só com um adulto a tiracolo.
Na adolescência, como eu era boa em desenho, comecei a fazer aulas de pintura em porcelana. E na aula, que só tinha adultos, por sinal, a professora, depois de me apresentar às tintas em pó, abriu um enorme armário para mim. E o que tinha dentro? P-A-N-E-L-I-N-H-A-S. Lindas, só que não eram mais de barro, dessa vez elas eram brancas, lisas, delicadas de todos os formatos. Ovais, redondas, com tampa, sem tampa, com pés, bordados, relevos... E ali eu podia pintar o que bem entendesse. Ia pra casa já pensando na próxima escolha que faria, e o meu maior prazer, nem era escolher o tema a ser pintado, era poder abrir de novo aquele armário e escolher qual seria a peça que eu selecionaria para aquele dia. E era uma dúvida... Posso escolher três, hoje? Era meu pensamento mais secreto.
Cresci, aprendi a cozinhar um pouco mais que feijão verde e arroz, e pintar um pouco mais que flores, mas o fascínio pelas panelinhas não morreu. Persiste a mesma sensação de encantamento e, por alguma razão, ainda perco o juízo ao entrar numa loja e me deparar com elas. Nem sempre brancas e nem sempre de barro, às vezes de cobre, às vezes de alumínio... Nem sempre só panelinhas, às vezes colheres, outras vezes, pratos. Mas a mesma magia. Consigo ainda sentir ao olhar para elas a mesma sensação daqueles dias. A mesma motivação que me levava a acordar aos domingos às cinco da manhã me acompanha ao me deparar com elas. E a mesma magia aparece todas as vezes que escolho uma peça e começo imaginar que guloseima eu poderei servir nelas. E penso o quanto é gratificante ofertar, principalmente o que toca o coração. Talvez por isso eu cozinhe, pois não é essa, uma forma linda de se presentear?