No livro “Los secretos de El Bulli”, o melhor cozinheiro do mundo, Ferran Adrià, pergunta: “O que é raro na cozinha?”, e discorre sobre alguns exemplos que se verificam pelo mundo afora. Os franceses amam escargots, os mexicanos suportam muito mais as pimentas, os chineses são famosos por consumirem cachorro e um monte de bichos que considero peçonhentos, como escorpiões, cigarras, bichos da seda. Uma amiga me informou que, em uma viagem ao Camboja, verificou que aranhas se transformam em um prato, não imagino como, bastante apreciado.
Apesar da observação, quando morava em Lisboa, chegava a sonhar com caranguejo, desejava desesperadamente as férias no Brasil e o momento de poder me deliciar com esta iguaria. Bem, realmente não posso afirmar que este seja de fato um bicho bonito de se colocar à mesa, pois lembra de verdade uma caranguejeira, mas, eu adoro e ponto. Nestes dias de janeiro, dirigi até a Barra do Cunhaú, com minha sobrinha e seu esposinho sueco, para comermos goiamum. Ele me dizia que aquilo ali era quase como comer uma formiga gigante. Penso que o mundo se mostra através da gastronomia. Mas até que ponto os hábitos culturais interferem no gosto pessoal de cada um de nós?
Ainda em Lisboa, me permiti viver algumas aventuras gastronômicas. Assim, determinada, resolvi encarar aqueles pequenos caracóis. Foi uma aventura para mim, pois é muito comum em Lisboa comer caracoletas como aperitivo. Também o que me pareceu muito inusitado foi um saboroso doce de tomate, feito por uma senhora muito querida, doceira de mão cheia, numa cidadela cujo nome não recordo. Apesar de nunca ter imaginado tomates como doce, achei delicioso.
Nem sempre é preciso se falar de experiências gastronômicas tão radicais. Recentemente, outra amiga recebeu aqui alguns conterrâneos de sua distante terra natal. Para agradá-los, levou-os para almoçar num restaurante típico daqui. Soube que nosso amado pirão foi veemente recusado, pois foi catalogado como “água suja” com algum espessante esquisito. Impressão parecida, eu tive ao conhecer Açorda, prato de referência em Portugal, mas adorei. Noutra ocasião, eu que adoro tapioca, resolvi levar a goma para Lisboa, pois saudosista, passava a vida a contar no escritório as suas maravilhas. Marquei dia e hora para fazer para os amigos a deliciosa tapioca. Não fez o menor sucesso. Fiquei arrasada.
Somado às questões culturais, existe também o gosto pessoal de cada um. Mesmo aqui, terra de pratos fortes, o sarapatel com certeza não é unanimidade. Mas, como diz o mestre Ferran Adrià, uma das magias da cozinha é precisamente a diversidade dos gostos. E eu, como humilde discípula apenas concordo. E desejo continuar viajando, através da cozinhas do mundo, me permitindo até quebrar minhas barreiras herdadas quando acreditava que só existia no mundo, aquilo que eu conhecia.